André Zanotta às vezes passa despercebido aos olhares dos torcedores do Grêmio. Nos bastidores, porém, o executivo tem papel importante junto aos seus pares no departamento de futebol. E vê esse trabalho coroado com a conquista da Libertadores, menos de um ano depois de chegar à Arena.

O executivo recebeu o GloboEsporte.com em sua sala no CT Luiz Carvalho, antes do embarque da delegação para os Emirados Árabes, onde disputa o Mundial de Clubes. Em alguns minutos de conversa, falou especialmente do planejamento para o próximo ano, contratações e o assédio do Barcelona a Arthur. E também revelou alguns segredos de uma temporada tão bem sucedida.

“O grande segredo do Grêmio neste ano é o grupo de jogadores. Acho que a gente tem uma quantidade de jogadores aqui, é injusto mencionar alguns, mas cito três: Edílson, Geromel e Ramiro. E tem muitos outros. É um perfil vencedor e mentalmente muito forte”. (Zanotta)

Confira abaixo trechos da entrevista:

GloboEsporte.com – O que foi mais difícil durante a temporada para o executivo, que fica nos bastidores do clube?
André Zanotta
 – Foi um ano muito bom, o Renato fala muito isso, estar em um clube do tamanho do Grêmio e ter um ano praticamente sem crise é muito raro. Eu vejo que a função do executivo passa por muitos pontos. Muitas vezes a imprensa limita o trabalho do executivo a contratações, saída e chegada de jogadores. Vai muito além disso. Tem que passar pelo ambiente no futebol, cada detalhe, como pagamentos em dia, premiações, equipamento de fisioterapia, relação de jogadores com comissão técnica e diretoria, detalhes da logística. Via minha função muito mais como forma de deixar um legado e projetar o Grêmio no futuro. Começar a projetar de uma forma para preparar o clube para as próximas gerações. Esse ano conseguimos planejar algumas coisas, como o projeto da transição que vai render muitos frutos no futuro.

André Zanotta, executivo do Grêmio, vibra com ano sem crise  (Foto: Eduardo Moura)André Zanotta, executivo do Grêmio, vibra com ano sem crise  (Foto: Eduardo Moura)

André Zanotta, executivo do Grêmio, vibra com ano sem crise (Foto: Eduardo Moura)

Como está o projeto do grupo de transição?
A gente formulou o projeto para 2018, fazendo com que tenha o objetivo de continuar o processo de formação, dando uma maior cobrança, um caráter mais profissional, criar uma integração maior com o time principal. Uma coisa que o Renato sempre pedia, precisava de mais informações. Às vezes não chegava a informação completa. Se tem todo o processo bem feito, vai chegar nele informações mais precisas para dar segurança para ele colocar os jogadores em campo.

Com a carência de não ter um treinador fixo do clube desde a saída do James Freitas, a gente achou que poderia buscar para a integração para ser o fixo e participar da comissão. Convivendo com o Renato, sabendo a forma como o Renato conduz os treinamentos, como trabalha a equipe, ter um espelho na transição. Essa forma como o Grêmio encantou o Brasil, poder levar para a transição. E se refletir para a base. Para que a gente estabeleça como modelo de jogo do Grêmio. Um modelo padrão, para que possa cada vez mais se solidificar dentro do clube.

“Via minha função muito mais como deixar um legado e projetar o Grêmio no futuro. Começar a projetar de uma forma para preparar o clube para as próximas gerações”.

Há a definição de férias dos jogadores?
Vamos conversar durante o Mundial, não deu tempo. Temos um ponto importante no ano que vem além do Gauchão, que é a Recopa em fevereiro. A gente tem um prazo muito curto para uma decisão. Representa um título internacional logo no começo do ano. Vamos programar bem isso para chegar nesta competição em condição de disputar em bom nível.

Como foi manter o time sempre em bom nível e sem crise?
O grande segredo do Grêmio neste ano é o grupo de jogadores. Acho que a gente tem uma quantidade de jogadores aqui, é injusto mencionar só alguns, mas cito três: Edílson, Geromel e Ramiro. E há muitos outros. Mas é um perfil vencedor e mentalmente forte. Jogadores de personalidade forte e vencedores. Aí pega Maicon, Grohe, Marcelo Oliveira, Barrios, Léo Moura, é uma quantidade muito grande de jogadores com esse perfil. Aí entra um cara como o Arthur, jovem mas que tem talento absurdo. Entra no grupo deste, que eles têm uma amizade enorme fora de campo, e isso se reflete em campo. Com a força mental para suportar a pressão que é jogar no Grêmio, a cobrança em jogos decisivos. E além disso, o Renato, obviamente, tem uma condução do elenco que poucas vezes eu vi. Tem uma forma de trabalhar e conduzir o vestiário que é incrível.

Tem como encontrar jogadores com esse perfil na hora de contratar? 
Esse é o mais difícil. Você analisa um jogador em quatro aspectos: técnico, tático, físico e mental. E o mental é o mais difícil, porque técnico, tático e físico, você consegue verificar em jogos, presenciais. A questão do caráter e personalidade do jogador é muito mais na convivência. E o que se busca é minimizar erros buscando informações onde já jogou, clubes que passou.

André Zanotta se tornou uma das figuras centrais no Grêmio (Foto: Eduardo Moura )André Zanotta se tornou uma das figuras centrais no Grêmio (Foto: Eduardo Moura )

André Zanotta se tornou uma das figuras centrais no Grêmio (Foto: Eduardo Moura )

Falando em perfil de contratação, não foram feitos investimentos altos nesse ano. Essa segue sendo a ideia para ano que vem?
Estar no Mundial impacta no início do ano, estávamos esperando para definir o planejamento. Nomes, contratações, tem negociações em andamento para jogadores que estão aqui ficar no ano que vem, novos contratados. Claro que estamos de olho. Se conseguir trazer jogadores em custo baixo e que tragam um benefício como foi neste ano, é o cenário ideal. Mas sabemos que não é tão simples.

Muito se fala que o Grêmio recupera jogador. O Cortez tem um perfil exatamente assim, um cara extremamente agradável, que se encaixou muito bem no nosso grupo. Ouvi de outros clubes: “Nossa, Cortez foi oferecido e nem cogitei”. Na minha cabeça: “Azar o seu”. Ele veio para cá e deu a resposta. Acaba sendo um custo benefício fantástico, Cortez, Léo Moura, Jael, jogadores desacreditados que provaram que ainda têm muito a dar.

“Se conseguir trazer jogadores em custo baixo e tragam um benefício como foi neste ano, é o cenário ideal. Mas sabemos que não é tão simples”.

Vai dar para manter grande parte deste elenco?
Tem obviamente uma questão orçamentária, que o Grêmio tem um rigoroso controle financeiro para poder continuar pagando e estar com as contas em dia apesar da dificuldade que o futebol brasileiro sempre teve. Temos um grupo muito vencedor hoje. Não seria inteligente da nossa parte não tentar manter a maior parte destes jogadores com a gente. Deu certo. No futebol, isso já se provou muitas vezes. Quando tem um grupo vencedor e consegue dar tempo ao trabalho. O grupo que venceu a Copa do Brasil, boa parte já ficou para esse ano, já venceu a Libertadores. É um ciclo que temos que aproveitar. No futebol sabemos que é muito difícil. É um vencedor só. E o torcedor dificilmente entende isso.

No fim de ano, o Grêmio vai ter que negociar alguém?
Óbvio que a situação financeira está longe de ser confortável. Mas temos que tomar todo o cuidado para não comprometer a parte desportiva, mas sabendo da necessidade financeira. Claro que gostaríamos de manter o Arthur até 2021 ou mais, o Luan até 2020 ou mais. Mas são os jogadores mais valiosos e visados talvez no Brasil. Ainda não tem nada concreto, mas tem sido especulado muita coisa, rumores e muita gente procurando. É um desejo deles muitas vezes, seguir a carreira com o sonho de jogar na Europa. Tem que respeitar também. Se chegar uma proposta que atenda bem ao Grêmio e ao atleta, vamos conversar. Não que necessariamente a gente tenha que fazer imediatamente.

As fotos do Arthur com a camisa do Barcelona que vazaram causam alguma dificuldade de negociação com o clube?
Eles admitiram que erraram, sabem que foi uma coisa que não pode ser. Foi uma coisa inaceitável da nossa parte. A pessoa que me ligou disse que não estava ali e acabou fugindo do controle. Obviamente que não iam colocar a camisa em um jogador que tem contrato com outro clube. Mas não temos porque criar nenhum tipo de atrito com o Barcelona. Ligaram e reconheceram o erro, é um clube gigante, é sempre bom manter relação. Óbvio, a conversa foi super amistosa, se tiver interesse e quiser avançar, nos procurem direto. Estamos abertos a conversar. Não estamos vendendo o jogador, mas se chegar uma proposta que nos interesse, que seja boa para o jogador, vamos ouvir.

“O grupo que venceu a Copa do Brasil, boa parte já ficou para esse ano, já venceu a Libertadores. É um ciclo que temos que aproveitar.”

O Grêmio tem interesse no Marinho?
Eu gosto muito do Marinho, acho um baita jogador, mas não teve nada concreto. Não tem nada. Agora, não dá para jogar muito mais para frente, Libertadores passou, agora tem o Mundial, que temos que estar focados, mas 2018 está aí. Marinho está na China e ganha um caminhão de dinheiro lá. Não sei da possibilidade. Vi que surgiu, mas não tem nada acontecendo no momento.

Para quais posições o Grêmio irá se reforçar?
Além de todas as competições deste ano, temos a Recopa ainda. São dois jogos a mais, mas não deixa de ser dois jogos a mais. Precisamos ter um elenco forte. Devemos reforçar o elenco em diferentes posições para ter condição de brigar em todas. E buscar talvez o Brasileiro, sentimos que se tivesse só o Brasileiro, poderíamos ter brigado com o Corinthians até o final.

Barrios e Fernandinho ficam?
Temos que a partir de agora sentar com a comissão técnica e direção para definir estes últimos nomes, alguns jogadores que t contrato até final do ano, para a gente ter uma definição. E isso ajuda no planejamento do ano que vem e na busca de reforços. Bruno Rodrigo também acaba, Jael. Tem a situação do Michel, também. Já comunicamos do interesse de exercer a opção e estamos discutindo contrato. Agora é formalizar o acerto.

André Zanotta diz que Grêmio precisa aproveitar ciclo vencedor (Foto: Eduardo Moura)André Zanotta diz que Grêmio precisa aproveitar ciclo vencedor (Foto: Eduardo Moura)

André Zanotta diz que Grêmio precisa aproveitar ciclo vencedor (Foto: Eduardo Moura)

A pré-temporada será em Porto Alegre?
Aqui. Temos uma estrutura muito boa, indo para um hotel tem que levar boa parte da estrutura para lá. Preferimos fazer aqui, já vai ser curta demais, Gauchão já começa logo, temos que definir a volta quando vai ser. Já tem um grupo que começa dia 18 de dezembro, do transição. Outro começa dia 5 de janeiro, que são jogadores que estavam jogando até o final do Brasileiro, jogadores emprestados, eventuais novos contratados, jogadores que não foram relacionados para o Mundial.